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Carlos Gardel, tango e processo terapêutico



Sempre me chamou a atenção como o novo tantas vezes é recebido com desconfiança. Descobri, num documentário, que isto também aconteceu com o tango.


Quando Carlos Gardel começou a cantar, alguns críticos e tradicionalistas diziam que o tango tinha perdido o ritmo, que já não servia para dançar e que tinha deixado de ser o mesmo.


Curiosamente, aquilo que mais tarde seria reconhecido no mundo inteiro começou por ser visto como uma perda.


Antes de Gardel, o tango era sobretudo instrumental, feito para acompanhar o corpo em movimento. Com ele ganhou palavras, emoção, voz, pode ser ouvido como experiência estética emocional, mesmo sem dança.


Com a mudança em nós acontece algo semelhante. O novo pode parecer estranho, ameaçador, até negativo. Podemos sentir que nos rouba algo ou que nos afasta do que éramos.


Mas no processo terapêutico aprendemos que mudar não é perder. A mudança não destrói a identidade, amplia-a.


O tango continuou a ser tango depois de Gardel e até ficou mais rico, mais plural, mais vivo. E nós também continuamos a ser nós próprios quando nos transformamos.


Mudar não é trair quem somos. É continuar a dançar, com novos passos. É descobrir que dentro de nós há espaço tanto para o que já fomos como para o que ainda podemos ser.


Na minha opinião, Gardel não estragou o tango. Pelo contrário, mostrou que até a tradição pode reinventar-se.


Talvez o nosso desafio seja esse: deixar de olhar para o novo apenas com desconfiança e começar a vê-lo como uma oportunidade para crescer.


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