"Os abraços não dados" (José Tolentino Mendonça, Semanário Expresso, 2021)

Sobre a falta da dimensão sensorial como expressão da amizade, amor, carinho...

A interação que estabelecemos uns com os outros não ultrapassa o limiar da intimidade se fica restrita unicamente à dimensão verbal. O tato é o que nos permite sentir o outro e informá-lo, mesmo sem palavras, acerca de nós próprios. O escultor Auguste Rodin, por exemplo, explicava, partindo da artesanal tatilidade da sua arte, que “o corpo é um molde no qual as emoções se imprimem”. A abertura do corpo ao mundo não se realiza sem o tato, que é o seu traço de união primordial. Por fugaz que seja, o tato é uma prova sensível que desmente um dos nossos medos mais terríveis: o do isolamento radical, o da solidão absoluta. Não admira que os nossos corpos humanos tenham necessidade de se exprimir como ‘con-tacto’.

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A amizade, o amor, o carinho, o cuidado não dispensam a dimensão sensorial. É claro que as palavras são importantes e que, também aí, todos trazemos tarefas por concretizar, porque raramente chegamos a dizer aos outros — mas a dizer mesmo —, quanto eles são importantes para nós. Porém, todos sabemos como as palavras ficam aquém ou como, pelo contrário, se iluminam quando acariciamos o rosto dos que amamos, quando sem apertar apertamos a mão de um velho ou de uma criança, quando tocamos o ombro de um amigo. Esse ‘con-tacto’ é um veículo para o afeto. Não tem um plano. Não se guia por um fim. Mas é capaz de transmitir-nos confiança na bondade da vida. É capaz de garantir-nos que a vida não se dispersa no puro esquecimento: através do vidro fosco entrevemos um fio de sentido. Esse ‘con-tacto’ acontece visivelmente na pele, mas é como se se deslocasse e estremecesse em nós de forma invisível. Podem ser instantes, mas perduram, nutrem, inauguram, confirmam.

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A pandemia tornou as relações menos táteis. Têm de ser os olhos e as palavras a explicar que gostaríamos de apertar a mão, trocar um beijo ou um abraço e não podemos. Mas a verdade é que passamos a transportar esse vazio em nós. O vazio de todos os abraços não-dados. Que, por vezes, nos pesa como uma ferida e outras nos alenta como uma promessa.

Semanário | Os abraços não-dados | José Tolentino Mendonça

A amizade, o amor, o carinho, o cuidado não dispensam a dimensão sensorial


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